Falar sobre esse assunto não é novidade.

Tampouco é difícil fazer qualquer interlocutor concordar com a necessidade de utilizar as melhores práticas de gestão no setor público. Então, qual a razão de vermos avanços tão lentos e insuficientes nessa área?

Primeiro, é importante fazermos algumas considerações sobre o setor público. Antes de atuar diretamente nesta área, eu ouvia pessoas conhecedoras dizendo o quão complexo é fazer gestão pública.

Estou muito acostumado a ouvir pessoas de diferentes setores discorrerem sobre a complexidade e a grandiosidade do que fazem, e acabava achando que tudo não passava de uma supervalorização dos desafios da área pública. Entretanto, “estar lá” fez a minha visão mudar. É um ambiente com uma lógica e um conjunto de características muito particulares.

É um “negócio” que não pode “fechar”. Não foi feito para o “lucro”, e até consegue conviver com “prejuízo” por um tempo, mas deveria ser capaz de evita-lo.

A entrega de resultados deveria estar em um contexto de planejamento geral com anos de antecedência. Por outro lado, lida com as situações e necessidades mais urgentes das camadas mais vulneráveis da população. Para esses casos, a resposta deve ser imediata.

Essa complexidade, contudo, não significa que não devemos ou podemos fazer muito melhor. Do ponto de vista da gestão de projetos, os conceitos com os quais trabalhamos são todos válidos e importantes. O PMIRS, de forma pioneira no Brasil, lançou em 2016 uma cartilha intitulada “Gerenciamento de Projetos no Setor Público – Práticas Mínimas Recomendadas”.

Ali estavam listados quatro pilares mínimos para obtenção de melhores resultados em diferentes âmbitos da área pública. A implantação de Escritórios de Gerenciamento de Projetos Estratégicos, a adoção de estruturas de governança para permitir melhor tomada de decisão, o uso de metodologias de gerenciamento de projetos organizacional e o gerenciamento de competências em gestão de projetos eram algumas das recomendações feitas na época.

É claro que, como em toda organização, há outros elementos a serem considerados. E no setor público, a questão política é fundamental, além dos aspectos culturais, relacionados com a forma como servidores públicos realizam as suas atividades e o quanto estão dispostos a mudar o que fazem. De toda forma, o setor público possui também um “chefe”, que se chama “população”.

E é justamente essa parte tão importante que tem o maior poder de influência para que as melhores práticas de gestão de projetos sejam adotadas no setor público. Até hoje, de forma geral, aceitamos que os recursos públicos fossem gerenciados sem parâmetros básicos de qualidade na gestão.

Aceitamos o “inaceitável”: projetos inacabados, sobrecustos enormes, pouco benefício para a população frente o volume aos investimentos.

É necessário que nossos gestores públicos passem a enfrentar o problema da gestão e as complexidades inerentes ao setor público: a política, a cultura e os desafios da nossa legislação. E, ainda mais, necessário que os eleitores saibam escolher políticos que queiram enfrentar tais desafios.

Autor: Thiago Regal
22 de novembro de 2017