Para celebrar o mês da mulher, nos propomos a contar a história da trajetória profissional de três grandes mulheres que vivenciam o gerenciamento de projetos. As primeiras duas mulheres entrevistadas foram Kelly Oliveira, a primeira e única presidente mulher do PMI Rio Grande do Sul, e Hellen Almeida, gerente de projetos e Business Analyst e Lead de Alliances and Government no PMI Global (clique aqui e confira).


A última e terceira história de sucesso é com Myrian Moura, a primeira mulher escolhida como Mentora Regional do PMI no Brasil.  Confira a entrevista completa e se inspire com uma trajetória que mescla a história do gerenciamento de projetos com a trajetória da vida profissional desta grande influência.


Quais as maiores conquistas da sua vida profissional?


Bem, virei GP por acidente, na primeira responsabilidade da minha vida profissional. 

Comecei minha carreira como trainee, em um programa muito interessante no mercado financeiro em São Paulo. Sou economista por formação e achei que ia ser controller.  Quando assumi o cargo, a primeira reunião em que participei como gerente, era para extinguir uma área. Os outros seis gerentes votaram a favor e eu disse que não, que não concordava (para espanto geral dos demais que haviam se acostumado com a trainee sem voz, nem voto por dois anos) e fiz uma defesa apaixonada porque eu acreditava que a área merecia uma reestruturação. Aí, meu diretor disse “bom trainee, o projeto é seu. Bote esta área “de pé” e, na volta, você assume a controladoria”. Moral da história: fui controller apenas 45 dias da minha vida profissional. Achei meu ‘lugar’ no mundo, meu propósito.


Desde então, fui exclusivamente uma profissional de projetos, com funções diferentes, em empresas diferentes. Fui gerente de projetos em sete organizações, de médio a grande porte, no mercado financeiro, varejo, mineração, infraestrutura. Fui PMO departamental, PMO corporativo, diretora e superintendente de projetos corporativos. Gerenciei desde implantação de ERP até fusão de empresas, da realização de eventos até mudanças radicais de processos com inovação. Cada um desses cargos foi alavancado em função de dominar as ferramentas de projetos e ser capaz de gerenciar bem uma mudança. A carreira em projetos começou por acidente, mas escolhi fazer desse papel minha carreira, meu sustento e, especialmente, uma escolha para minha vida. Sou GP 24x7. É como minha cabeça funciona.


Depois de alguns anos, foram surgindo oportunidades de compartilhar um pouco da minha bagagem de outras formas. Comecei informalmente com palestras, artigos e logo eu já estava dando aula. Em 2005, optei pela carreira solo e abri minha empresa de consultoria e treinamento em projetos (que segue viva, uma grande vitória). E nisso já são 17 anos, como professora, coordenadora, orientadora técnica exclusivamente para cursos de projetos em nível de pós-graduação, além de instrutora e consultora nas organizações. Obtive um primeiro lugar no Brasil e segundo no mundo pela gestão de um projeto de gestão eletrônica de documentos quando isso ainda parecia mais ficção do que produção. Tanto meu mestrado quanto doutorado foram sobre a disciplina de projetos. Já atuei no mercado financeiro, automotivo, infraestrutura, saúde, varejo, óleo e gás, defesa - acho fantástico trabalhar em tantos contextos diferentes. Então, a história da minha carreira é a história da gestão de projetos contada em tons diferentes. 

Grandes conquistas? Entregar bem, o que foi combinado em cada projeto. Aprender com as falhas (e, claro, foram muitas e seguem acontecendo). Fazer grandes amigos em todos os lugares onde atuei (e alguns desafetos com respeito). Facilitar a vida de muitos profissionais em começo de carreira e, influenciar alguns executivos para que a mudança funcione em seu mundo. Fazer alguma diferença, sem muito ‘barulho’, onde trabalho ou participo. 


Como você avalia o seu poder para transformar?


Mais do que nunca, depois de três décadas trabalhando com projetos, me vejo como uma facilitadora para o processo de transformação por meio dessa disciplina. Cada vez que ajudo alguém a pensar na construção de sua carreira em projetos, refletindo sobre o que é (ou ainda precisa desenvolver), onde quer chegar (e por que) e como desenhar um roteiro para alcançar este objetivo, acredito que sou um agente de transformação. Sempre que compartilho minha história, minha experiência, acredito que incentivo alguém a explorar, confiar ou ampliar suas fronteiras, e, por isso, sou um agente de transformação. Quando instrumentalizo jovens profissionais (que precisam, sim, de competências técnicas em projetos), ou quando instigo e contribuo para a mudança da mentalidade no nível executivo (que precisa entender e patrocinar a execução estratégica nas organizações), tenho poder de transformação. Até porque, a transformação precisa ser de dentro para fora, no raciocínio, na cultura, na mentalidade para se refletir em ações ou comportamentos que gerem novos resultados. Sendo professora, consultora, orientadora . . . como não reivindicar o poder de influenciar e transformar ?


E eu acho sensacional conseguir fazer isso em diferentes níveis, com diferentes públicos. Para os estudantes e jovens profissionais dos cursos de especialização, mais do que ferramentas e técnicas, incentivá-los a reconhecer um alvo, lidar com as incertezas e construir caminhos flexíveis para abordar um problema, habilidade que vale ouro nas organizações atualmente. Para minha empregada, que agora sabe pensar nos requisitos, nas restrições e orçar a reforma de sua casinha antes de realizá-la ou para a cooperativa de donas de salão de beleza, que conseguem agora priorizar suas iniciativas estratégicas, já foi dado um grande passo para que o resultado final seja bem-sucedido. 


Trabalho muito também com o segmento empresas, especialmente para viabilizar a execução de sua estratégia. É uma chance bacana trabalhar com esses gestores e, mais do que apresentar para eles uma abordagem A ou X para gerenciar suas iniciativas, ajudá-los a refletirem sobre o impacto de seu papel, de suas ações para a implementação estratégica na organização. O planejamento estratégico é sempre muito “sexy”, muito conhecido, mas na hora da execução, se os gestores não forem capazes de transformar boas escolhas em resultados concretos, não terão sucesso na entrega da estratégia. E algumas questões e soluções precisam ser desmistificadas. Frequentemente, recebo demandas para implantar uma abordagem ágil, quando a questão não é implantar, mas antes saber escolher uma abordagem adequada para o que vai ser feito. Se será a abordagem A, B ou C, importa cada vez menos. Mas importa muito que esse grupo de gestão, num nível mais alto, seja capaz de definir claramente sua necessidade (ou aspiração) e atuar com agilidade: decisões mais rápidas, processos mais consistentes e uso flexível da capacidade instalada. Então, nessas ‘alturas do campeonato’, ter credibilidade e oportunidade para que as pessoas me escutem é um grande poder, eu sei que posso fazer alguma diferença. 


O papel do praticante ou profissional de projetos é um papel transformador em si, de dentro para fora, como tudo que é sustentável e duradouro nessa vida tem que ser. Porque toda vez que eu ensino, eu aprendo; cada vez que eu mudo realidade de uma organização, eu me reinvento; cada vez que aprendo uma habilidade nova, posso atender a um grupo de necessidades diferente. Esse é o meu, o nosso, poder de transformar com a disciplina de projetos!


Como o PMI te ajudou a conquistar essas habilidades e a chegar onde você se encontra na vida profissional?


Então, eu penso no PMI como um parceiro, um sócio na minha carreira onde eu destacaria três grandes momentos. O primeiro grande momento foi quando eu descobri a metodologia do PMI, em 1997, 1998 e me inscrevi para um primeiro curso. E olha que foram quase seis meses para o curso acontecer porque não tinha quórum, não tinham nem dez pessoas para que o curso acontecesse. Foi quando eu descobri que tinha uma metodologia para gestão de projetos. Que se tratava de uma carreira, uma profissão onde várias pessoas que já tinham acertado e errado e eu podia aprender muito com elas. Eu já estava trabalhando como gerente de projeto há oito anos e não sabia disso. Por isso, foi um grande marco e um ‘upgrade’ profissional, coroado com a certificação PMP em 2004. 


O segundo grande momento foi quando eu fui convidada para fazer parte do voluntariado do capítulo de Minas Gerais. Eu já conhecia vários dos profissionais do PMI-MG, até porque o grupo de projetos não era assim, tão grande, naquela época. O convite foi uma surpresa e eu não tinha a menor ideia do que seria esse trabalho de voluntariado. E ser voluntária acabou sendo absolutamente transformador, pessoal e profissionalmente. Eu entrei como Diretora de Programas, e na gestão seguinte, Diretora de Programas Especiais. No meu quarto ano como voluntária, fui eleita presidente do capítulo, e na época, a gente recebeu informações do próprio PMI que havia sido o maior volume de filiados votantes numa eleição de capítulo.  Fui a primeira mulher eleita como presidente do capítulo de Minas, seguindo os passos de Myrza Chiavegatto, que geriu o PMI-MG em 2010. Foi um marco de carreira, de reconhecimento, mas especialmente um privilégio atuar junto à comunidade mineira de projetos. 



Em minha gestão como presidente, um grande orgulho foi o PMI Minas Gerais ter sido o primeiro capítulo a romper a barreira de retenção dos filiados acima de 70%, um resultado que em 15 anos do PMI no Brasil nenhum capítulo brasileiro havia conseguido. Esse foi um grande momento do capítulo que eu tive a oportunidade de capitanear em parceria com um supertime (onde havia ainda duas diretoras, Rosânia de Castro e Giselle Laurentys). Tínhamos um plano estratégico robusto, usamos técnicas de gestão inovadoras, trabalhamos muito, muito duro e nos divertimos ainda mais ! 


Paralelamente, me envolvi com o voluntariado global através do Peter Pfeiffer, do PMI RJ, que na época estava à frente do Ethics Member Advisory Group, que cuidava da implementação de um código de ética e sua instrumentalização. Eu sempre tive uma afinidade muito grande com o tema. Era algo que eu batalhava muito no dia a dia dos projetos. E participar da movimento de tradução dos documentos, de validação do código, também foi uma experiência fantástica.


E o terceiro momento que destaco, claro, é enquanto mentora regional do PMI para o Brasil. Fico muito orgulhosa de ter sido a quarta mentora para o Brasil e a primeira mulher neste papel. Foi uma experiência muito inovadora no PMI, já que éramos três mentoras para a América Latina, Central e Caribe. Uma oportunidade ímpar pela troca e parceria sob o ponto de vista feminino e seus desafios. E nós, três meninas, “bancamos” junto ao PMI a necessidade de termos uma voz ativa enquanto grupo, enquanto não nativos da língua inglesa. A gente tinha, até esse momento, o encontro feito no mesmo espaço e na mesma data, mas sem nenhuma integração entre os latinos e eventos apenas em inglês. Isso era algo que me incomodava muito, até porque o brasileiro tem muito mais facilidade com o espanhol do que com o inglês. E uma grande afinidade cultural. Fizemos um evento integrado, com atividades que mesclavam as línguas, costumes, formatos. Transformamos a participação latina nos eventos do PMI e criamos oportunidades na comunidade de projetos global, para que a gente tivesse, efetivamente, vez, voz e voto mais ativos e respeitados na comunidade de projetos global. 


Desde 2019, venho também conversando sobre a participação feminina na gestão de projetos pelo mundo afora: já falei para as meninas de Angola, Portugal, Líbano, Canadá, além do Brasil, claro. Nossos desafios e experiências têm nuances culturais, mas são mais parecidos do que jamais imaginei. Facilitar o caminho e dar voz às meninas de projetos, onde quer que elas estejam, é um privilégio, mais uma oportunidade que o voluntariado me trouxe !


O voluntariado PMI e a comunidade de projetos transformaram meu olhar, consolidaram minhas habilidades e ampliaram experiências - como não seguir, apaixonadamente, compartilhando e promovendo a habilidade de ‘empoderar as pessoas para transformar sonhos em realidade’? 


Com essa entrevista, encerramos nossa série Mulheres que Inspiram. Esperamos que as três histórias que fizeram parte desta iniciativa tenham inspirado e despertado mulheres para seguirem suas jornadas com dedicação para que, cada vez mais, seja vozes ativas e agentes de transformação em suas comunidades.

Faça parte também das voluntárias do PMIRS que ajudam a impactar e transformar nosso Estado!

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Categorias: Carreira
Data de publicação: 23 de março de 2022
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