Gerenciar projetos no setor público exige planejamento estruturado, flexibilidade diante de incertezas e cooperação entre equipes. Em Passo Fundo, a aplicação de boas práticas tem sustentado o avanço de iniciativas de modernização. Entre elas estão o Cidadão Online e o Sandbox, projetos que integram o Passo para o Futuro — pacto pela inovação que reúne poder público, universidades, empresas e sociedade civil com o propósito de construir, até 2050, uma cidade referência em inovação centrada nas pessoas.
Como gerente de projetos envolvido diretamente nas duas iniciativas, compartilho aqui um pouco sobre como estamos conduzindo seu desenvolvimento e de que forma o pacto pela inovação estruturou métodos comuns de trabalho para todas as iniciativas.
Para orientar o desenho e a execução dos projetos, foi adotado o Backward Design, abordagem que parte da definição dos resultados esperados e retrocede até as ações necessárias para alcançá-los. O método é adequado para ambientes complexos, pois alinha múltiplos atores em torno de metas comuns e resultados verificáveis. No contexto do pacto, ele garante coerência entre os projetos e alinhamento à visão estratégica de longo prazo.
O planejamento inicial foi delimitado a seis meses, conforme o princípio da elaboração progressiva (Rolling Wave Planning), que recomenda detalhar apenas o horizonte de maior previsibilidade. O ciclo inicial serve para testar hipóteses, validar premissas e ajustar o plano com base em evidências. Ao final desse período, é elaborado o plano de continuidade, incorporando aprendizados e consolidando a estratégia de longo prazo.
O Cidadão Online foi estruturado para redesenhar a relação entre administração e cidadão, ampliando o acesso digital aos serviços públicos. Já o Sandbox cria um ambiente regulatório experimental e seguro, que permite testar novas tecnologias, modelos de negócio e soluções urbanas com apoio do poder público e articulação entre governo, empresas, universidades e sociedade civil. Ambos compartilham uma governança colaborativa, baseada em transparência, aprendizado contínuo e foco em resultados.
Os dois projetos aplicam fundamentos clássicos de gerenciamento: definição de escopo, atribuição de responsabilidades, cronograma validado, rastreabilidade de entregas e monitoramento de desempenho. No Cidadão Online, as reuniões são quinzenais, focadas em metas e remoção de impedimentos. No Sandbox, os encontros são mais espaçados, dada a natureza regulatória e o envolvimento de múltiplas instituições. Em ambos, as decisões são colegiadas e orientadas por evidências, garantindo agilidade e alinhamento.
A proposta do Cidadão Online surgiu em um workshop de cocriação, que utilizou uma metodologia colaborativa semelhante ao World Café. As ideias foram escritas, trocadas entre participantes e aprimoradas coletivamente até chegar a um conjunto final de propostas. Após avaliação técnica, optou-se pela criação de um portal unificado de serviços digitais, mais viável e abrangente que o aplicativo inicialmente proposto. Já o projeto Sandbox surgiu desde o início do pacto como uma necessidade para testar soluções inovadoras de forma controlada antes da adoção pelo município.
A governança dos projetos é sustentada por práticas de gestão de riscos, controle integrado de mudanças e registro formal de decisões, com a atualização dos planos dos projetos. Cada ciclo inclui entregas progressivas e revisões estruturadas, fortalecendo o aprendizado organizacional e permitindo replanejamentos baseados em resultados concretos.
No caso do Cidadão Online, a transformação digital dos serviços públicos parte da revisão e simplificação dos processos existentes, garantindo padronização, rastreabilidade e melhoria contínua na entrega de serviços digitais.
O Sandbox segue lógica semelhante, mas voltada à experimentação de novas tecnologias e soluções urbanas. Seu ciclo envolve a criação de editais de chamamento, seleção de projetos, execução controlada, avaliação e documentação dos resultados. Para sua implementação, foi necessária regulamentação municipal específica. A natureza regulatória e experimental exige acompanhamento técnico e parcerias estratégicas com universidades e instituições de inovação.
Ao término do ciclo inicial, ambos os projetos produzem planos de continuidade, transformando o aprendizado obtido em estratégia de longo prazo. Essa prática reforça a maturidade em gestão de portfólio, que valoriza tanto resultados quanto aprendizado institucional.
A adoção sistemática de práticas de gerenciamento de projetos na administração pública representa um avanço de governança. Trabalhar com metas claras, comunicação estruturada e indicadores definidos aprimora a integração entre áreas e fortalece a tomada de decisão. Também reforça a importância de profissionais qualificados em gerenciamento de projetos, capazes de conduzir iniciativas complexas e garantir continuidade, mesmo diante de mudanças administrativas.
As experiências de Passo Fundo com o Cidadão Online e o Sandbox demonstram que o gerenciamento de projetos é mais do que uma ferramenta operacional — é um mecanismo de governança e inovação pública. Aplicar metodologias como o Backward Design e o Rolling Wave Planning permite lidar com incertezas e transformar ideias em resultados tangíveis.
Esses casos reforçam que, quando o gerenciamento de projetos é incorporado à cultura organizacional, ele se torna o alicerce de uma administração pública mais ágil, colaborativa e orientada a valor, capaz de sustentar a transformação digital e construir cidades mais inteligentes e humanas.
Referências bibliográficas
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